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Axé: canto do povo de um lugar

Filme acompanha trajetória da música do carnaval de Salvador, que ganhou o país e o mundo a partir de 1985

Imagens de velhos carnavais embaladas por uma terna interpretação de Ivete Sangalo para “Baianidade nagô”, da Banda Mel, dão um quê saudosista e sentimental à abertura de “Axé: canto do povo de um lugar”, documentário de Chico Kertész que chegou ontem aos cinemas do país. A explosão nacional, a partir de 1985, da música feita exclusivamente para a folia de Salvador — e que, em pouco mais de dez anos, chegaria a um auge de popularidade capaz de elevar o Brasil ao posto de um dos maiores mercados de música do mundo — dá início a uma história que o publicitário baiano, em sua primeira incursão pela direção de longas-metragens, se esmera para contar num filme de pouco menos de duas horas de duração.

— O aniversário de 30 anos do axé tinha passado e não havia ainda nenhum documento produzido com cuidado — explica o diretor, que, depois de um longo trabalho de pesquisa, filmagem e edição, optou por lançar seu filme próximo ao carnaval, “para aproveitar o clima”. — A primeira versão tinha três horas e meia de duração. Foi dolorido, muito difícil mesmo eliminar cenas.

Uma abundância de personagens desfila pela tela, em depoimentos tomados para o filme e cenas de arquivo que remontam aos anos 1950, quando Dodô e Osmar energizaram o carnaval ao inventarem o trio elétrico. Embora a sua paternidade ainda seja alvo de incontáveis discussões, para a gênese do encontro de estilos musicais que ficaria conhecido como axé, fundamental foi o sucesso, em 1985, da música “Fricote”, do cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Caldas. Reggae, ijexá, frevo, samba e latinidades diversas entraram na receita do músico que já chamava a atenção, no começo dos anos 1980, ao lado de outra futura estrela do axé — o percussionista Carlinhos Brown — no grupo Acordes Verdes.

A chegada de “Fricote” ao público do Sudeste, com a inevitável ajuda do programa do Chacrinha, movimentou ainda mais a cena musical de Salvador, que orbitava em torno do estúdio do produtor Wesley Rangel e que fervilhava com os blocos afro e cantores como Gerônimo, das canções “É d’Oxum” e “Eu sou negão”. Logo, outros nomes — como a cantora Sarajane, de “A roda”, um dos muitos hits que atravessam o filme — fariam a sua passagem para um mainstream da música brasileira (então bem afeito à cultura dos videoclipes) levando cor, sensualidade e ritmo à programação das grandes emissoras.

— As coisas aconteciam simultaneamente. Aquela era uma época em que as pessoas ligavam a TV, viam aqueles artistas da Bahia e se perguntavam de onde saía aquilo tudo — observa Chico Kertész, que investe numa estreia do filme em 28 salas (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Santos e interior da Bahia), aumentando para 40 na semana que vem (quando o “Axé” se estende para cinemas do Nordeste).

Com uma narrativa na qual a história de um astro puxa a do seguinte (e sobram pedestais, com validações dadas pelos baianos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil), “Axé: canto do povo de um lugar” não foge, porém, de relatar passagens pouco abonadoras, como a do pagamento de jabá. Artistas, produtores, radialistas e empresários ajudam a desvendar um pouco da história subterrânea do axé, com revelações e um bocado de bom humor.

— A gente deu a sorte de não estar mais no auge do movimento, pudemos contar com o distanciamento e a sinceridade das pessoas — conta o diretor.

Depois daqueles anos 1980 em que o grande vendedor de discos foi a Banda Reflexu’s, criada para emular na bateria o som dos tambores do Olodum (especialmente com o hit “Madagascar Olodum”), o axé entrou em nova fase. Em 1992, foi a vez de Daniela Mercury (que Vovô do Ilê chama no filme de “a branquinha mais pretinha da Bahia”) chegar ao estrelato, marcado por um show no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP) que parou a Avenida Paulista e ameaçou as estruturas do prédio. Após o Olodum gravar com Paul Simon e se apresentar com o americano no Central Park, em Nova York, nos anos 1990, foi Daniela quem levou o axé para uma excursão pelo exterior.

Na pré-estreia carioca do filme (na última terça-feira, no Espaço Itaú de Cinema), a cantora fechou a noite com um pocket show que lembrou os tempos nos quais monopolizou rádios e palcos com o disco “O canto da cidade”, de 1992 — a apresentação acabou na rua, com Daniela cantando, cercada pelo público, em cima do carro que a levaria de volta para o hotel. Ela era, ali, a memória viva de quando a Bahia era conhecida entre os executivos do ramo musical como “um estado disfarçado de gravadora”. Depois de Daniela Mercury, viriam ainda a consagração do ex-cantor da Banda Beijo Netinho (de “Milla”, música onipresente em 1997), do samba de roda do Recôncavo turbinado de sexualidade do É o Tchan, além da ex-vocalista da Banda Eva e estrela maior surgida no axé, Ivete Sangalo.

“Axé: canto do povo de um lugar” também não deixa passar batida a decadência comercial do movimento a partir dos anos 2000. Seja por seu caráter extrativista ou pela desunião de seus artistas (os argumentos são vários), ele chega ao fim do filme com apenas um astro das gerações mais recentes em pleno brilho: o cantor Saulo Fernandes. Isso, embora nas últimas semanas, o MC Beijinho, misturando funk e Olodum na música “Me libera nega”, tenha surgido como promessa.

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